segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CONTO ATUAL

Bum!

Ecoou mais um tiro no bairro. Em plena luz do dia.
O pequeno Fernando já estava acostumado, mas sempre se assustava.
Do alto dos seus 7 anos, embora não compreendesse, já tinha visto muita coisa.

Praticamente todos os dias quando ia para a escola, encontrava um corpo estendido no chão, sujo de sangue, cercado de curiosos, aguardando há horas a polícia chegar.
Mais um que foi “pra vala”, como ouvia os adultos dizerem.
Vai ver “tinha cheirado demais e se esqueceu de pagar”, falava o tio dele, o Pedro eletricista. Homem bom, trabalhador. Nordestino, chegara ali há muito tempo. Sempre contava estórias de quando era criança, de como brincava no terreiro da casa, cheio de mato, planta, pé de umbu, seriguela... Acho que deve ser fruta.

Falava de quando ele e os outros meninos tomavam banho de açude, numa água limpinha que dava gosto. De, quando chegava à noite, ficavam em frente à casa, contando estórias, a lua branquinha, brilhando no céu...

Fernando sonhava. Tinha inveja do tio. Queria ir para o nordeste, esse lugar mágico de que o tio falava. Pedro disse que veio porque tinha que trabalhar, pra ser gente, melhorar de vida. Quando chegou estranhou tudo. Os carros, os prédios, o falar das pessoas... É, ele fala engraçado, diferente da gente. Eu gosto dele.

Fernando não vivia num lugar assim. Os barracos de madeira, uns por cima dos outros, naquele morro que parecia não ter fim... Muitos buracos nas ruas, nas paredes, por causa dos tiroteios que frequentemente aconteciam. A mãe não deixava sair à noite. Dizia que era perigoso. Durante o dia era melhor. Brincava com os amigos, jogava bola, de esconder. Certa vez, achou um pacote cheio de mato. Por que alguém ia guardar mato dentro de um saco? Mostrou à mãe. D. Lurdinha brigou, mandou colocar de volta onde tinha achado.

“Vamos logo, menino!”

Fernando olhava para o corpo estendido no chão. Pensou no que o tio contava. Imaginava o Nordeste. Lembrava da escola. Sua mãe puxava o seu braço, pois ele já estava atrasado pra aula. A mãe dizia que se ele quisesse ser alguém na vida, tinha que estudar. Pois é. Quem sabe um dia eu possa conhecer o Nordeste que o meu tio falou. Longe de tiro, de morte e de sangue.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O maior dos monstros

Ela maltrata.
Desfalece.
Faz chorar.
Abandona.
Desespera.
Enlouquece quem a tem.
E também quem a vê nos olhos dos outros.

Por favor,
não permita
em hipótese alguma,
que uma criança
passe fome.

A dor da fome dói em qualquer um.

domingo, 21 de novembro de 2010

CONSCIÊNCIA




Olhai por todos os lados.
Qual o motivo do ódio?
Por que a indiferença?
Várias cores, vozes, palavras.
Diferentes, mas saídas do mesmo lugar.
Como podeis ignorar?
O rubro que corre nas veias está em todos.
O amor, a fé, a compaixão, é natural do homem.

Um dia, dividiram-nos com a ciência.
Com ou sem ciência, consciência.

Somos todos iguais.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Vendedor de balas - Canção



Seu moço eu tô aqui no sinal
vendendo bala
A minha bala é doce
e adoça a alma

Seu moço eu não tive escolha
quem pegasse em minha mão
Pra eu passar para um papel
os sonhos do meu coração
A minha vida inteira é essa
trabalho pra me sustentar
Por isso ofereço essa bala
pra o amargo da vida amenizar

Seu moço eu tô aqui no sinal
vendendo bala
A minha bala é doce
e adoça a alma

No meio da selva de pedra
sou bicho pra sobreviver
muito cedo aprendi
que a vida é matar ou morrer
Mais um filho esquecido
nessa pátria mãe gentil
vendendo bala pra adoçar
a amargura desse meu Brasil.

Cada parada é um arrepio
Aqui fora o frio, aí dentro o calor
Um olhar inocente, um sonho perdido
procurando saber se alguém encontrou...

ANDANDO SÓ




Passeio nas ruas da vida
nem sempre prestando atenção
andando só, sem destino
pra onde vou, sem noção.

Às vezes encontro pessoas
a quem tento dar minha mão
andando só, eu procuro
ser delas mais um irmão.

Algumas são como nós frouxos
a qualquer hora desatam
quebrando elos de amor
que nem sempre se reatam.

Porém existem momentos
que o lado mais fraco é o meu
e eu provoco o desenlace
daquilo que um dia foi meu.

Vejo que por mais que eu queira
na estrada da vida estou só
e vivo a vagar sem destino
eu acho que assim é melhor.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CÉU CINZENTO DE FIM DE TARDE

Ainda há pouco olhei para o céu desse fim de tarde.
Cinzento, fechado...
Carregado de nuvens.
Parece que vai chover.

Às vezes não quero que o progresso chegue por aqui.